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Política

O Brasil está abrindo uma janela para o verdadeiro nacionalismo?

O Brasil está abrindo uma janela para o verdadeiro nacionalismo?

Yuri Kaioli 2026-10-12 5 min de leitura
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O Brasil está abrindo uma janela para o verdadeiro nacionalismo?

Há anos nos dizem que o grande conflito do país é entre direita e esquerda, PT contra PL, lulistas contra bolsonaristas. A polarização ocupa as redes, as mesas de jantar e o noticiário. Mas vale perguntar: e se esse for apenas o duelo que nos deixam enxergar?

O espelho americano

Quem observa o Brasil de fora reconhece o roteiro. O PL ocupa, no imaginário popular, o lugar do Partido Republicano, e o PT, o do Partido Democrata. Dois blocos que não se ouvem, que se tratam como inimigos existenciais e que mobilizam eleitores mais pelo medo do outro lado do que por projeto próprio.

A comparação tem limites, e é honesto reconhecê-los. Os Estados Unidos têm dois partidos dominantes. O Brasil tem dezenas de legendas, coalizões instáveis e um Centrão que governa com todos. Mas no fenômeno da polarização afetiva, em que a política deixa de ser divergência e vira identidade, os dois países se parecem muito.

O que a polarização esconde

Enquanto brigamos entre nós, o mundo se reorganiza em torno de uma disputa entre Estados Unidos e China. E o Brasil está no centro do tabuleiro: somos potência agrícola, detentores de uma das maiores reservas de água doce do planeta, da Amazônia, de minerais críticos e de terras raras, e temos um mercado de mais de 200 milhões de consumidores.

Não é teoria da conspiração reconhecer que grandes potências disputam acesso a esses recursos. É geopolítica básica. Americanos e chineses competem por minerais estratégicos, infraestrutura, energia, portos e cadeias de alimentos. A pergunta incômoda é: quem, dentro do Brasil, está defendendo o interesse brasileiro nessa disputa?

Talvez a pergunta ajude a entender uma lógica mais antiga do que qualquer sigla: o poder move o mundo. Países, grupos e lideranças se posicionam conforme o quanto de poder podem conquistar ou preservar. O valor das nossas riquezas, aos olhos de quem as cobiça, se mede nessa mesma régua. E enquanto isso, boa parte da população ainda não percebeu o tamanho do jogo.

O teste do poder

Há um argumento que incomoda os dois lados, e por isso merece ser feito: PT e PL já tiveram mandato, caneta e maioria para enfrentar os problemas estruturais do país. O crime organizado cresceu, se sofisticou e avançou sobre territórios e instituições sob governos de ambos os campos. O discurso duro contra o crime rende voto; a ação consistente, que exige enfrentar interesses poderosos, raramente aparece.

O mesmo vale para o debate sobre os limites do Judiciário. Parte da direita elegeu senadores justamente com a promessa de enfrentar os superpoderes e os abusos atribuídos ao Supremo. Parte da esquerda faz o oposto, defendendo o tribunal quando lhe convém. Em ambos os casos, o que se vê muitas vezes é cálculo, e não convicção. Cada um protege o próprio flanco.

Agora o PL chega a um momento decisivo. Fez a maior bancada do Congresso, elegeu governadores importantes e, segundo muitas leituras, tem boas chances de disputar a Presidência em posição de força. Terá, então, a oportunidade de provar que é diferente. Haverá enfrentamento real ao crime organizado, ou apenas mais discurso? As críticas que a própria direita fez a ministros e a decisões do Judiciário se transformarão em ação institucional, ou ficarão no palanque?

A bomba-relógio fiscal

Nada disso acontece num vácuo. O país carrega uma conta pública pesada, com despesas obrigatórias que crescem e um custo elevado da máquina estatal. Sem reformas estruturais, em especial um corte sério de gastos e uma revisão do tamanho e da eficiência do Estado, qualquer governo, de qualquer lado, se verá encurralado.

Amor nenhum salva casamento com endividado. E amor nenhum salva a aprovação de um governo em crise. Quem assumir sem coragem para enfrentar a conta estará jogando gasolina em volta da bomba.

A janela para o nacionalismo

É nesse cenário que se abre uma possibilidade ainda embrionária: a de um campo nacionalista, que não se defina por esquerda ou direita, mas pela defesa da soberania. Um campo que possa reunir figuras tão diferentes quanto Ciro Gomes, nacionalista histórico, e Renan Santos, que criticou tanto os interesses americanos quanto os chineses sobre as riquezas brasileiras.

Esse campo ainda não existe como força organizada, e nada garante que existirá. Mas se os dois polos dominantes falharem em entregar o que prometem, a frustração do eleitor pode abrir espaço para novas ideias. A janela existe, e quem a aproveitar bem pode reduzir o reinado de PT e PL a algo muito mais curto do que eles imaginam. Para isso, esse campo precisaria de algo que os atuais não têm: coerência entre discurso e prática.

Quando o Brasil vai acordar?

Fica a pergunta que mais incomoda. Quando vamos acordar e defender nosso próprio país? Um povo que se preocupa de verdade com a soberania não pede intervenção estrangeira para resolver problemas que cabem a ele resolver. A responsabilidade começa na urna: escolher representantes que enfrentem o crime organizado na prática, e não apenas no discurso, é a melhor forma de dispensar qualquer tutela de fora.

A soberania não se defende com a bandeira de outro país. Defende-se com instituições que funcionam, com contas em ordem, com segurança pública eficiente e com lideranças que coloquem o Brasil acima da sigla.

O verdadeiro duelo talvez não seja entre esquerda e direita. Talvez seja entre quem quer um Brasil que decide o próprio destino e quem se conforma em ser tabuleiro.