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Política

Dinheiro ou proposta? Os 24 deputados distritais eleitos gastaram mais de R$ 16 milhões, e dois terços saíram de dinheiro público

Levantamento mostra o peso do financiamento nas eleições para a Câmara Legislativa e reabre a pergunta: o eleitor do DF votou em ideias ou em estrutura de campanha?

Yuri Kaioli 2026-10-05 4 min de leitura
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Dinheiro ou proposta? Os 24 deputados distritais eleitos gastaram mais de R$ 16 milhões, e dois terços saíram de dinheiro público

Na campanha, todo candidato diz que vai resolver os problemas do Distrito Federal: saúde, segurança, transporte, educação. Mas quanto custou, afinal, ganhar uma cadeira na Câmara Legislativa?

Os dados de 23 dos 24 eleitos (o levantamento não tem os valores de Robério Negreiros, do Podemos) somam R$ 16,29 milhões em gastos de campanha. Desse total, cerca de R$ 10,7 milhões, ou 66%, vieram de recursos públicos, distribuídos aos partidos por meio do fundo eleitoral.

Uma eleição de seis dígitos (e de sete)

Seis deputados ultrapassaram a marca de R$ 1 milhão em gastos. Juntos, movimentaram R$ 6,83 milhões, cerca de 42% de tudo o que foi gasto pelo grupo. O menor gasto entre os eleitos foi de R$ 301 mil, e a distância entre o topo e a base é de mais de quatro vezes.

O campeão de gastos foi Joaquim Roriz Neto (PL), com R$ 1.265.250,00, dos quais R$ 1,17 milhão saíram de dinheiro público. Logo atrás aparece Renata Daguiar (Republicanos), com R$ 1.233.456,15, sendo R$ 1.163.456,15 do fundo público. Em terceiro está Max Maciel (PSOL), com R$ 1.112.721,65, dos quais R$ 990 mil públicos. Roosevelt Vilela (PL) vem em quarto, com R$ 1.111.000,00 (R$ 1,07 milhão do fundo), seguido por Estefane Sampaio (Republicanos), com R$ 1.101.795,67 (R$ 750.176,67 públicos). Fecha o grupo do milhão Eduardo Pedrosa (União), com R$ 1.007.660,00, sendo R$ 417 mil de dinheiro público.

Na faixa intermediária, entre R$ 600 mil e R$ 850 mil, estão André Kubitschek (PL), com R$ 824.820,00 (apenas R$ 100 mil públicos), e Rogério Morro da Cruz (PSD), com R$ 815.334,93 (R$ 800 mil públicos). Depois vêm Martins Machado (Republicanos), com R$ 763.358,66, e Hermeto (MDB), com R$ 740.426,96. Na sequência aparecem João Cardoso (PL), com R$ 707.001,00, Ricardo Vale (PT), com R$ 683.006,01, Dayse Amarílio (PSB), com R$ 654.782,00, Chico Vigilante (PT), com R$ 631.568,75, e Roney Nemer (PP), com R$ 627.500,00.

Entre os que gastaram menos, estão Pepa (PP), com R$ 496.202,01, Keka Bagno (PSOL), com R$ 406.497,67, Gabriel Magno (PT), com R$ 389.785,38, Jaqueline Silva (MDB), com R$ 370.000,00, Múcio (PSB), com R$ 367.564,28, Victor Jansen (PL), com R$ 366.950,00, Pastor Daniel de Castro (PP), com R$ 309.861,40, e Wellington Luiz (MDB), com R$ 301.540,00.

Esse é o retrato de uma disputa desigual. Candidato com pouca estrutura, sem acesso à caixa do partido, sem tempo de rádio e TV e sem equipe profissional tem dificuldade de sequer ser ouvido, por melhor que seja a proposta.

O discurso e a conta

Chama atenção que, em quase todo o espectro político, o discurso de "cuidar do dinheiro do povo" convive com campanhas milionárias bancadas, em boa parte, pelo próprio povo. Em vários casos, mais de 90% do gasto veio do fundo público: Rogério Morro da Cruz (98%), Roosevelt Vilela (96%), Renata Daguiar (94%), Martins Machado (94%) e Joaquim Roriz Neto (92%). Outros dependeram muito menos desse recurso, como Múcio (8%) e André Kubitschek (12%).

É preciso dizer que o uso do fundo eleitoral é legal e segue regras do TSE e dos partidos. A crítica não é de ilegalidade, é de coerência: quem promete austeridade e eficiência no gasto público precisa explicar por que uma campanha de mais de R$ 1 milhão, quase toda paga com dinheiro público, é considerada necessária.

O que decidiu o voto?

A pergunta do título não tem resposta simples. Dinheiro compra visibilidade, material, equipe e presença em todas as regiões do DF, e proposta sem visibilidade dificilmente chega ao eleitor. Ao mesmo tempo, visibilidade sem proposta nem sempre se converte em voto, e há exemplos de candidatos com gasto menor que se elegeram com base em trabalho comunitário e identidade política.

O que os números mostram é que a competição começa desigual. Enquanto o sistema financiar campanhas de forma tão concentrada, o debate de ideias terá sempre um custo de entrada, e esse custo é alto.